Na onda do Indiana – Parte 1: Armadura de Deus (1986)

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Título Original: Long xiong hu di (EUA: Armour of God)

Com essa resenha pretendo iniciar uma trilogia de rip-offs (ou “cópias”) do Indiana Jones. Os dois outros textos serão As Minas do Rei Salomão (1985) e Tudo Por uma Esmeralda (1984).

Então vamos a versão de Indy por Jackie Chan…

Com uma filmografia tão numerosa, chegando a fazer até quatro, cinco filmes por ano durante os anos 80, Jackie obviamente estava sempre à procura de novos conceitos para seus filmes. E este é um dos seus trabalhos mais curiosos, com mais ar de filme B  do que qualquer outro filme seu do período. Armadura entra na onda popular na época dos filmes de aventura, recorrentes desde o sucesso de Caçadores da Arca Perdida. A sequência inicial é chupinhada da abertura do filme de Indy. Se aproveitar de fórmulas de sucesso é uma constante dentro do trabalho de produtoras fora de mainstream de Hollywood. Talvez muito do charme dessas produções, como as da Cannon ou as de Dino de Laurentis, esteja no fato de que as pessoas envolvidas estão suando sangue para conseguir se aproximar do resultado de produções mais endinheiradas.

Como caçador de relíquias Jackie Chan teria de viajar o mundo a procura de tesouros em grandiosas locações e um orçamento pequeno fica mais evidente nesse tipo de história. Não sei qual diferença em relação ao dinheiro investido nos filmes, mas em Projeto China, um filme de época, parece que recebeu o triplo. Outro ponto que parece dar ao filme um toque de exploitation à italiana é a seita secreta que faz às vezes de antagonista de Jackie, e também a violência e a nudez presentes, um tanto incomuns na sua filmografia. Mas vamos em frente.

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Minutos antes de rachar o crânio

MTV e Matança

Os primeiros vinte minutos voam. O filme abre com uma cena em que Jackie rouba uma espada de uma tribo primitiva. Se você é fã do trabalho do homem provavelmente sabe que foi pulando em uma árvore para escapar de lanças molengas nessa cena que ele sofreu o pior acidente da sua vida. Caiu de cabeça o chão. Enfim. Há diversos vídeos no YouTube que comentam o fato.
Um corte rápido vai da tribo se curvando em “respeito” a fuga espetacular do explorador num monomotor, para um videoclipe de uma banda de surf music com Jackie nos backing-vocals. O homem na posse de um controle remoto que pausa o vídeo explica para seus superiores, velhos encapuzados de túnicas negra, que para conseguir todas as partes da Armadura de Deus basta sequestrar a antiga namorada de Jackie da época em que participavam da banda que ele fará o serviço. Prosseguimos para um show solo do antes vocalista principal daquela banda, intercalado com a sequência do “sequestro” da ex-namorada. Acontece que em vez de descobrir o endereço da moça e capturá-la sozinha e indefesa, os membros dessa seita macabra preferem entrar metralhando todos os participantes de uma feira de moda mambembe.

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É óbvio até para quem nunca se aventurou a escrever um roteiro para o cinema que tudo se resume a escolhas. Mas por que então essa cena funciona tão bem (ou não, dependendo do seu ponto de vista)? O resultado é um clipe que alterna e relaciona as cenas do show com a matança no desfile parisiense. As cenas do show de Alam, o amigo de Jackie, servem para mostrar que ele seguiu carreira na música e as cenas do sequestro violento de Laura, a terceira peça do triângulo amoroso entre os amigos, servem para mostrar que esses homens não medem esforços para atingir seus objetivos, mesmo que tenham que matar. Se mostradas em sequência e não intercaladas perderiam a graça. Seriam simples cenas de exposição, sem encanto, se essa é a palavra adequada para descrever massacres ao som de synth pop.

A Armadura e o Guere-Guere

Antes de avançar, só um destaque aqui para a cena em que Jackie combina com um participante do leilão para que ele suba os valores dos lances sobre espada do início do filme. Ambos se confundem subindo o preço mais do que deveriam. Logo me veio o leilão atrapalhado por Chico Marx em The Coaconut, que no geral eu devo ter achado mais engraçado que A Night at the Opera. Enfim, Jackie acaba conhecendo Lola, a mulher que acaba comprando a peça e que coleciona as outras partes da Armadura de Deus. Depois Jackie recebe a visita de Alam avisando que Laura foi sequestrada e o resgate é entrega da Armadura. Os três decidem ir atrás dos sequestradores e voltar com Laura e a Armadura completa. Essa é a trama principal. Simples. É difícil entender como o filme consegue se tornar tão arrastado em alguns momentos.

Eu não costumo pegar muito no pé de atores e nesse tipo de filme até prefiro atuações caricatas e exageradas. Mas Lola Forner, que apareceria depois em Detonando em Barcelona, realmente incomoda. Sabe quando às vezes você lê uma crítica e o redator chama a atenção para falta de carisma de um ator? As vezes não é questão de “ir com a cara” de alguém. Lola não faz esforço nenhum para entreter, comover ou quer que seja. Transparece a má vontade de alguém que queria só alavancar a carreira de modelo. Triste. Jackie se porta mais como o herói, deixando que Alan assuma a maioria das piadas. Mesmo em Police Story, um filme mais sério, o lado cômico de Jackie (ou alguma outra dimensão) consegue aparecer com mais facilidade do que aqui.

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Eu também estava assim nessa parte do filme, Jackie…

Outro coisa difícil é ter paciência com os diálogos. Sejam os longos discursos do colecionador (atenção no flashback com soldados trombando no campo de batalha) ou toda a sequência que envolve as confusões “românticas” entre Jackie, Lola e Laura. Há uma cena similar em Projeto China 2 em que Jackie e vários outros personagens se escondem na casa de uma jovem presa no meio de uma confusão. O ritmo e o suspense ajudam cena a ficar engraçada. O que passa longe de Armadura.

Vale Tudo

Acho que os problemas do filme estão ligados a falta de consequência das ações das personagens. O trio formado por Jackie, Alan e Lola decide levar adiante o que seria a troca da armadura por Laura, uma isca à laWalter Sobchak. Os sequestradores abrem o saco de Alan para descobrir algumas panelas velhas. Na sequência, é claro começam as confusões com Jackie e Alan perseguindo os responsáveis pela troca para se deparar com o resto da gangue de tocaia (como o Han Solo). Mas acontece que diferente dos niilistas de Lebowski, esta gangue realmente estava com a pessoa que dizem ter sequestrado e o erro de Alan se prova mais tarde não ter nenhuma gravidade. Não faz com que Laura perca um dedo do pé. Ou seja, não há muito o que temer na verdade. Eu sei que esse é um filme de pancadaria e comédia mas então não colocassem aqueles assassinos sanguinários do começo para criar alguma expectativa!

Os homens da seita se mostram neste momento como uma gangue de motociclistas, que passa então a perseguir Jackie no seu Mitsubishi cheio de gadgets. Ou seja, há uma variedade de figurino que você pode escolher ao entrar nessa seita, seja o estilo monge, terrorista árabe ou rebelde de motocicleta. Mas falando sério, é pensando nessas coisas que os fãs de filmes B se sentem recompensados. Imagine como seria interessante se fosse melhor explorada, a ideia de que eles na verdade são a manifestação do mal encarnado; vilões genéricos como uma força da natureza.

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Há uma cena inclusive que mostra um dos líderes da seita detalhando aos cúmplices a produção recente de drogas. Mas eles estão vestidos de monges enfurnados num monastério. Quem está lucrando com a lavagem cerebral desses homens? O velho da barbicha? Dificilmente. Quem sabe eles poderiam ser uma fração de uma organização criminosa mais complexa. Infelizmente a ação desses mal feitores fica restrita a se relacionar com prostitutas e tomar sopa de legumes. A cena em que Jackie finalmente sai na mão com os monges te lembra porque você aguentou todo esse vai-e-vem. Ninguém consegue criar cenas de lutas melhores que Jackie Chan. Eu não disse mais realistas. Eu disse mais satisfatórias, divertidas e exageradas. Os monges voam pela sala de jantar, batendo a nuca na parede, as canelas nas tábuas dos bancos de madeira e as costas aterrissam no chão de concreto. Esses caras merecem medalhas!

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O Desfecho

Como final-bosses temos quatro mulheres negras e fortes. Personagens realmente inesperados e que  seriam um acréscimo interessante na teoria da organização maligna que levantei a pouco. Esse quarteto não faria feio ao lado de grandes exemplares da Spectre, organização criminosa dos filmes de James Bond. O problema é que na hora em que o quebra-pau começa é possível notar que as atrizes, dão lugar a dublês vestidos de mulher. Já é possível notar esse tipo de troca na briga do refeitório: os figurantes europeus saem para dar lugar ao time de lutadores de Jackie Chan. O que seria o grande atrativo de uma cena tão incomum perde um pouco a força. Imagine se as atrizes que tivessem sido escolhidas realmente lutassem. Seria mais interessante. Mas a cena não deixa de ser bem divertida. Num momento Jackie sobe numa plataforma com espaços entre as tábuas para fazer a oponente prender o salto do sapato.

Por fim, Jackie foge da fortaleza que está desmoronando pelos explosivos que ele acendeu lá dentro para pular para dentro do balão de ar quente, pilotado por ninguém menos que Lola, acompanhada de Laura e Alan. É bacana que o momento em que Jackie está prestes a pular da montanha é parecido com o momento em Police Story no shopping. Jackie se concentra antes façanha. Do base jumping o filme corta para uma take de Jackie, como na queda do carro nazista em Blues Brothers, pulando de uma altura consideravelmente maior do que aparenta ser a montanha. Parece que Jackie pula de um avião para cair no balão.

Veredito

Pontos Fortes:

  • É um filme obrigatório para qualquer fã do Jackie justamente por ser um dos mais diferentes, um belo filme B.
  • Quando rola a pancadaria é show.

Pontos Fracos:

  • Lola.
  • Parece que rolou um pé no freio depois do acidente de Jackie e o filme tem poucas cenas de ação.

Último Pitaco: Um leve gosto de decepção justamente pelo potencial que esse filme teria. Quem sabe poderia ter sido uma fita ainda maior quem sabe com um Sammo Hung na direção, que acho que combinaria mais com o estilo do filme.

Bônus: Segue a crítica mais otimista que a minha no Kung Fu Kingdom

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