God of Gamblers (1989)

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Du Shen (aka God of Gamblers & “Não achei título em português”)

Esse filme passou alguns anos na minha lista de pendências. Havia uma época em que era vidrado nos filmes do John Woo e vi praticamente todos. Vi Heroes Shed no Tears em 9 partes no YouTube. Duas vezes! Logo queria ver outros filmes no mesmo estilo e fui atrás de mais heroic bloodshed, sem saber que era assim que esses filmes ficaram conhecidos. Mas God of Gamblers foi ficando para trás. Na verdade ele é um X-Tudo do cinema de Hong Kong dos anos 80. Tem comédia, pancadaria, tiros, sangue, drama envolvendo acidente e culpa, bromance e uma trilha sonora ruim de doer. Tudo isso misturado fez do filme um enorme sucesso de bilheteria e rendeu inúmeras continuações e spin-offs.

No começo do filme Chow Yun Fat aparece como o God of Gamblers do título num cassino de Las Vegas faturando seu pão de cada dia. É estranho que um dos seguranças do cassino mostra uma foto no computador de Ko Chun, seu verdadeiro nome, de costas como se sua identidade fosse um segredo, mas na próxima cena aparece sendo entrevistado por uma moça que parece ser uma jornalista. Ele é convidado a se retirar. Fica meio no ar o lance da sua identidade. Se quem o conhece realmente seriam só pessoas bem envolvidas na jogatina. Ou eu que não entendi mesmo.

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Logo Ko Chun está no Japão para a cena mais singular no filme. Numa partida que envolve Mahjong e depois dados, Wong Jin o diretor do filme toma algumas liberdades para super estilizar a habilidade dos jogadores, com jogadas absurdas, o que deixa a cena bem interessante. No primeiro jogo, de Mahjong, o juiz mostra as faces das pequenas peças de madeira, as vira e embaralha. Ko Chun e seu oponente ficam vidrados nas peças para não perder as mais importantes de vista. Depois lutam com pauzinhos para disputar quem fica com cada peça e formar a maior sequência. Eu nunca joguei Mahjong de dois na vida, só aquele do computador de ir escolhendo as peças iguais, mas está na cara que tudo é exagerado. Procurei as regras no Wikipedia e o artigo tem uma tonelada de informações mas me pareceu ser parecido com poker. Você deve formar alguns grupos de peças para poder baixar e somar mais pontos. Ko Chun ganha por uma diferença pequena, mostrando que seu adversário japonês talvez seja o melhor do seu país.

A próxima partida é de um jogo de dados asiáticos. Aqui o jogo parece ser mais simples porque o juiz explica que quem tirar a soma menor nos números dos dados vence. O cara de bigode dá lugar a uma mulher que mostras suas tatuagens de Yakuza para botar medo em Ko Chun. Ela usa um copo para jogar os dados. Essa combinação de copo e dados é usado num jogo popular na China, mas o que rola aqui parece ser uma adaptação para deixar a cena mais simples. (Para quem sempre fica perdido em cenas de cassinos em filmes americanos, seguem dois videos para tentar entender por cima o que acontece: Básico/Avançado). A jogadora põe os dados no copo e gira. Ko Chun se concentra no barulho dos dados e câmera vai se aproximando de seu ouvido. Até que ela para, põe o copo na mesa e revela os dados. Empilhados e todos com o 1 virado para cima! Para ganhar dela Ko Chun pede um copo de metal. Chacoalha. Pousa o copo na mesa e revela cinco dados empilhados e 1 quebrado. Ele tira assim cinco e ganha o jogo!

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É isso que me leva a assistir a um filme oriental desse estilo. Saber o quão mais eles se arriscam e te estimulam a aceitar algo tão diferente. Talvez seja algo cultural e esse estranhamento seja mais sentido por nós ocidentais. Mas esse exagero e plasticidade, na atuação principalmente, pode ser uma herança do teatro. David Byrne escreveu no Como a Música Funciona sobre uma experiência que teve ao assistir teatro kabuki. Como entendeu tudo mesmo sem saber japonês. Sentiu o que acontecia. Em RikiOh: The Story of Ricky, por mais que as lutas sejam cômicas de tão exageradas, aquele tipo de tensão e tesão na hora de dizer as falas realmente me deixa comovido para me importar com tudo que está acontecendo.

Depois da jogatina e consagração em terras nipônicas, Ko Chun visita um amigo que lhe conta uma história antiga de rivalidade com um jogador, Chan, que ele não pode matar e deve ganhar nas cartas, do contrário ele deve se matar para manter a sua honra. Ko Chun decide ajudar o amigo em troca de uma caixa de chocolates (o vício do jogador). O amigo também lhe empresta um guarda costas, Mr. Dragon, o grande badass do filme. Mais tarde, de volta a Hong Kong e depois de ajudar um outro amigo ganhando uma bolada de um mafioso local, Ko Chun toma um trem já prevendo uma emboscada. Eu até achei que ele mesmo que ia sair na porrada logo depois que quatro bom moços do YCMA entram no trem com barras de metal escondidas nas mangas da jaqueta. Mas é Mr. Dragon que dá as caras para resolver a situação numa cena que lembra uma luta dentro de ônibus em Carga Explosiva com o Jason Statham.

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Ko Chun saí ileso da confusão para cair numa armadilha do jovem Knife, um cara que apareceu antes na história mas até esqueci de mencionar. Knife queria pregar uma peça num dono de rottweilers, mas é responsável por Ko Chun rolar morro abaixo e bater sua cabeça numa pedra fazendo com que ele perca a memória. Eu não fazia ideia que era esse o rumo que a história ia tomar! Nem li a sinopse. Eu imaginei que Knife iria se envolver de algum modo com Ko Chun e talvez ele acabaria como aluno do God of Gamblers. Mas o que acontece é que Ko Chun, com o acidente fica com a mentalidade de uma criança de doze anos mas não perde sua habilidade sobrenatural de fazer cartas de baralho trocarem de lugar. Logo o filme vira um Rain Main em Hong Kong com Knife e sua turma se aproveitando do God of Gamblers.

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Os proximos cinquenta minutos focam na relação de Ko Chun e Knife. É um pouco carregado no drama e na ingenuidade com que tudo acontece. Não funciona muito bem aqui. Bem longe do bromance e redenção f*didos de The Killer. Mas Ko Chun começa a se lembrar da sua vida antiga e até liga para Mr. Dragon. O guarda-costas aparece no hotel que o grupo de Ko Chun está bem a tempo de salvar sua vida. Não vou tentar explicar essa trama paralela em detalhes, mas um “amigo” de Ko Chun descobre o paradeiro do God of Gamblers e vende a informação para um associado de Chan, o rival daquele amigo japonês de Ko Chun (eu tive voltar o filme pra lembrar disso tudo). Mr. Dragon dispara suas duas 9mm nos gangsters enquanto Knife cumpre seu papel de alívio comico e Ko Chun entra em pane como Dustin Hoffman. A sequencia tem até uma referência ao tiroteio na estação de Os Intocáveis (sim, sim, que tirou do Eisenstein) mas dessa vez numa escada rolante.

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Até que Ko Chun vê que seu amigo Mr. Dragon vai morrer se ele não tomar uma atitude. Ele vai se lembrando da sua vida no submundo, pega duas pistolas no chão e destrói os bandidos na bala em câmera lenta com um volume de squibs e sangue que já estamos acostumados em heroic bloodsheds mas que nessa altura do filme (quase um “filme família”) surpreende. Ko Chun caminha carregando um dos matadores, atirando em seu peito. Brutal. E nem foram eles que fizeram ele “perder a memória” para tanto ódio assim!  No fim das contas Ko Chun é atropelado, recupera a memória (era só bater a cabeça de novo) e vai para o jogo de cartas com Chan que já preparou uma trapaça. Ele comprou algumas lentes que conseguem identificar uma marcação nas cartas do baralho invisíveis a olho nu. Tudo bem James Bond.

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Mas Ko Chun já sabia de tudo, tinha sua lente, sabia que aquele seu amigo estava lhe traindo e ainda consegue mandar todo mundo para a cadeia. Nessa hora Knife já está tão avulso quanto no começo do filme. Ele fica com o coração partido com o fato que Ko Chun não querer saber dele. É claro! Você quase matou o cara, não prestou socorro como deveria e usou a deficiência e o talento sobrenatural dele para ganhar dinheiro, seu filho da p*ta! No fim Ko Chun volta para a casa de Knife antes que ele, chorando, rasgue uma foto do God of Gamblers. Ele perdoa o amigo para que os dois possam ir para Las Vegas para uma lua-de-mel ganhar dinheiro como parceiros de jogatina.

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Pontos Fortes:

  • O filme tem estilo. Bebe de várias fontes sem receio. Se arriscar sempre é bom.
  • É difícil algum filme sobre jogos de azar igualar os primeiros vinte e cinco minutos desse filme.
  • A própria maluquice do roteiro deixa cada virada inesperada.

Pontos Fracos:

  • Poderia ser mais curto e mais focado, por mais que tenha elogiado a bagunça.
  • A cena que Ko Chun faz birra e se perde na cidade grande para depois aparecer tomando um picolé com uma balão do Mickey é um daqueles momentos que você se pergunta se não deveria estar vendo logo algum filme Cassavetes ou Tarkovsky (depois passa).

Conclusão: Já viu City on Fire, Full Contact, Tiger on The Beat e todos os filmes de 86 a 92 do John Woo? Então veja esse.

 

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