The Yakuza (1974) + listas, Paul Schrader e críticos de cinema

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Título Original: The Yakuza (BR: Operação Yakuza)

alphbet70sListas são uma tentação para quem gosta de cinema. Reunir filmes em categorias ou colocar ordens de preferência ajuda a lembrar daqueles que mais gostamos, mas mais ainda existe aquela prazer do colecionador, de riscar itens e dar seu julgamento sobre o que viu. Sempre que quero saber sobre algum gênero ou procurar um filme pra ver, digito no Google: “melhores filmes de…” E a partir da lista ir separando aqueles que me chamam atenção. Além de fazer as minhas é claro. Uma tarefa infinita e às vezes sem sentido. Alguns filmes parecem que tem lugar cativo na minha lista de filmes dos anos 70 e outros entram de supetão, como The Yakuza, querendo mandar para baixo filmes que me acompanham a mais tempo. Você ainda enjoa de uns, outros te decepcionam depois de uma revisão (que pra mim são raras).

Enquanto escrevo esta resenha já faz algum tempo que vi o filme. Mais de um mês na verdade. Dessa vez eu exagerei nesse intervalo mas eu prefiro deixar o filme esfriar na minha cabeça. Agora revi algumas cenas deste filme e acho que curti ainda mais. Olhando agora, lembrando de tudo e revendo algumas cenas com calma dá pra perceber que pequena obra-prima que é Operação Yakuza (que talvez ganhou esse título por conta dos vários “Operações” da época…). Reli o capitulo que foca nos irmãos Paul e Leonard Schrader do livro Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’Roll Salvou Hollywood do crítico, historiador e biblioteca humana Peter Biskind. Aliás, a passagem que talvez tenha mais marcado do livro era realmente sobre como os dois irmãos escreveram esse roteiro. Acho interessante então resumir um pouco dessa história.

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Paul Schrader

Paul e Leonard eram filhos de um casal calvinista holandês religioso ao extremo. Os pais surravam os dois quase que diariamente para disciplinar os meninos sempre incutindo o medo do inferno entre outros sermões. Paul só foi ver um filme quando tinha 17 anos quando entrou cagando de medo para ver Anatomia de um Crime num cinema de bairro. Tinha alucinações de que o cinema pegaria fogo e anjos desceriam para levar ele a danação eterna. A família toda, inclusive, flertava com a morte sendo que dois irmãos mais velhos que Paul e Leonard e um tio chegaram a se matar. Leonard dormia chupando o cano de uma 38. descarregada como se fosse uma chupeta e Paul deixava a sua sempre a vista. Toda essa depressão levou Paul a escrever o roteiro de Taxi Driver em 10 dias depois de ficar internado no hospital com uma úlcera provocada pelo whisky enquanto tentava a vida como crítico de cinema em Los Angeles. Ele só voltou a encontrar o irmão quando Leonard voltou em 1972 do Japão, onde trabalhava de professor. Ele veio com a história para Operação Yakuza. Queria escrever um livro mas Paul achou melhor que os dois escrevessem um roteiro.

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Pollack, Kishi e Mitchum

Paul vendeu a idéia para seu agente dizendo que o filme seria uma mistura de O Poderoso Chefão com Bruce Lee e este lhe adiantou 5 mil dólares para que os irmãos começassem a trabalhar no texto. Os dois se trancaram num apartamento barato e alugaram duas máquinas de escrever onde martelavam os dedos sem parar. Tomavam suco de tomate feito com sachês de ketchup que roubavam de lanchonetes. Num determinado momento os dois ficaram sem inspiração e decidiram ir para Las Vegas torrar todo dinheiro que tinham para a culpa se tornar o combustível para terminar o roteiro. Quando pronto, o texto foi a leilão e foi paga a quantia mais cara por um roteiro até então: 325 mil dólares. O filme acabou nas mãos de Sidney Pollack, (este dirigiu o também foderoso Jeremiah Johnson, mas que também ama um filme brega) sendo que o roteiro de Operação Yakuza foi passado por ele para o Robert Towne (outro mito dos roteiros, responsável por Chinatown; na opinião de Syd Field, o melhor roteiro já escrito) dar uns tapas. Mesmo com um time desses muita gente meteu pau no filme.

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Roger Ebert em sua crítica de janeiro de 1975 dá duas estrelas e meia de cinco para o filme. Critica a violência e trama muito complicada, mas ao mesmo tempo elogia todo o resto ao tratar das relações entre os personagens e o talento de Pollack para dirigir as cenas de ação. Ou seja, ele trata o filme como um exemplar do cinema popular ou exploitation, mencionando até a Shaw Brothers no começo do texto. (Já Pauline Kael, um grande, senão o maior, nome da crítica cinematográfica na época por outro lado era amiga de Paul Schrader e foi peça chave para o sucesso do roteirista.) Mas Operação Yakuza é mais do que uma apropriação americana de um gênero estrangeiro, no caso o filme de crime japonês, e exploração do exótico e violento em outro país. Diferente do que acontece em outros filmes de east-meets-west como em O Último Samurai e Ghost Dog, em que o sentimentalismo diz respeito à cultura japonesa, o mais importante aqui é a relação entre dois homens. Os americanos podem não entender totalmente ou concordar com os códigos de condutas mas sentem culpa, amam e chutam bundas como seus irmãos orientais.

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No filme Harry Kilmer, interpretado por Robert Mitchum, tem de voltar ao Japão a pedido de um amigo que teve a filha sequestrada. Kilmer serviu no Japão durante a Segunda Guerra e teve um relacionamento meio platônico com Eiko Tanaka (Keiko Kishi) depois de ter salvo sua vida e de sua filha. O irmão de Eiko, Ken Tanaka (Ken Katakura) tem então uma dívida com Kilmer e o americano pede ajuda do ex-yakuza para achar a menina sequestrada. Depois de idas e vindas na história os dois partem para invadir um antro da máfia japonesa e salvar a vida de Ken, marcado de morte. Mitchum vai para cima dos gangsters armado com uma pistola e uma espingarda de caça enquanto que Katakura fatia os homens tatuados com sua espada. O final é uma baita cena de ação, mas com um problema. Como a atenção é dividida entre os dois, em alguns momentos acompanhamos a ação de Mitchum e perdemos o que está acontecendo com Katakura. E vice versa. Ou seja não há uma dilatação temporal causada pela edição para retomar a ação no momento em que a deixamos quando a montagem reveza entre os os dois espaço. A cena acontece em tempo real. Uma ideia interessante mas chateante para uma cena de ação em que você quer ver os detalhes de como cada um consegue se safar da morte.

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De resto só posso elogiar a ação do filme. Além do confronto final há uma cena em que uma gangue da yakuza entra na casa de um amigo de Kilmer procurando por ele e por Ken. Os bandidos mantém Eiko, sua filha e dois amigos de Kilmer (Richard Jordan e Herb Edelman)  sob a mira de revolveres até que  começa a confusão e o tiroteio. Uma coisa que eu amo nesses filmes dos anos setenta é como você sente o impacto, o espaço, o cheiro do lugar. A edição rápida e os enquadramentos de Pollack fazem de tudo um pequeno milagre ao dar sentido a um cena tão violenta e desajeitada. Ken num momento luta com uma bicicleta contra os gângsteres enquanto Jordan geme atravessado por uma espada e Edelman grita do segundo andar para que todos parem de atirar. Sensacional!

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Pontos Positivos:

  • Se você gosta de filmes de crime classudos dos anos 70 este aqui é essencial.
  • Sempre acho interessante ver um filme com tantos detalhes sobre o Japão.

Pontos Negativos:

  • Realmente é um filme para se assistir duas vezes porque há bastante informação para ser absorvida.
  • Talvez o filme seja um pouco devagar em alguns momentos já que a trama se diluí um pouco depois que a menina é resgatada. Outra coisa que pode melhorar numa revisão.

Conclusões:

  • Alguns dizem que a trama é confusa e eu que odeio tramas confusas não achei.  Talvez uma coisa que possa ter incomodado ao publico americano são as relações entre os personagens que podem não fazer muito sentido. Como a mudança na trama de Lone Wolf and Cub quando este virou Shogun Assassin.
  • Os anos 80 podem ter sido a década mais divertida mas os anos 70 foram sem dúvida a melhor para o cinema badass.

PS: Espero ainda falar mais sobre filmes de crime japonês e yakuza quando ver Battles Without Honor and Humanity e ler GUN AND SWORD: An Encyclopedia of Japanese Gangster Films 1955-1980

PS 2: Se você sabe de mais filmes de East-Meets-West deixe seu comentário:

Japão:

The Yakuza, Red Sun, The Silent Stranger, Black Rain, Kill Bill, The Five Man Army, Hell in the Pacific, You Only Live Twice, Gung Ho, House Of Bamboo, The Challenge 1982, Sayonara (1957), Year of the Dragon.

Hong Kong/China:

The Stranger and the Gunfighter, Shanghai Joe, Big Trouble in Little China, Millionaires Express, Enter the Dragon, The Man with the Golden Gun, Bloodsport, Double Impact.

 

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